Para (começar a) entender a Filosofia Antiga...

A Filosofia Antiga é riquíssima e encanta por diversos aspectos, como sua originalidade e amplitude. Tamanha é a sua importância que se chegou a afirmar, com certo exagero, que toda a história do pensamento ocidental (incluindo a história da filosofia posterior) é mera nota de rodapé à filosofia de Platão.

A filosofia grega marca a ruptura do pensamento mítico para o pensamento lógico, racional. Contudo, para começar a entender a Filosofia Antiga é preciso compreender o pensamento grego da época. E esse pensamento é fortemente marcado pela mitologia, exposta tanto pelos rituais quanto pelas teogonias (mitos sobre a origem dos deuses) e cosmogonias (mitos sobre a origem do cosmos).

As teogonias e cosmogonias gregas, entre elas a Teogonia, de Hesíodo, não apenas retratam as crenças e, de certa forma, o conhecimento da época sobre a origem dos deuses e do cosmos, mas, sobretudo, apresentam-se como mitos de soberania em que o desenvolvimento de um mundo ordenado só é possível a partir do poder de um deus predominante. (Portanto, é leitura obrigatória para todo estudante de filosofia!)

A origem dos deuses


Na Teogonia, Hesíodo conta apresenta Caos, um dos primeiros e principais deuses. Nesse ponto, não há elementos identificáveis; não há ordem. Apenas Caos, e com ele, Gaia (terra), Eros (amor) e Tártaro (abismo). O relato que segue expõe as batalhas entre os deuses com o nascimento de Ouranós (céu), filho de Gaia; o casamento dele com a mãe e o modo como aprisiona seus filhos (titãs, ciclopes e hecatônquiros) no ventre materno; o plano de Gaia executado por Cronos, seu filho, para castrar Ouranós e libertar os irmãos; o casamento de Cronos com Rheia, sua irmã, com quem tem filhos e os engole; e finalmente, a tomada do poder por Zeus, filho de Cronos e Rheia, que liberta os irmãos, os seis primeiros olímpicos – Poseidon, Hades, Hera, Hestia e Deméter – sendo, após isso, proclamado o deus dos deuses. Este, com diversas deusas e mulheres, gera vários filhos como estratégia para se prevenir de um possível ataque à sua soberania. Entre esses filhos estão Ares, Afrodite, Apolo, Ártemis, Hefesto, Hermes, Dionísio e Atena, outros deuses que farão parte do panteão grego. Como se observa, a história toda é marcada pelas diversas lutas entre os deuses tendo, em cada geração, um deus dominante e outro que lhe toma o poder, numa progressão do obscuro caos a um mundo sistemático e harmônico.


Apolo x Dionísio: a dualidade característica da religião (e da vida) grega


Essa dualidade (ordem x caos) característica da religião grega encontra em dois deuses olímpicos – Apolo e Dionísio – seu símbolo máximo.

Apolo e Dionísio: opostos, mas complementares. Apolo é o deus da luz, do conhecimento, da ordem, do comedimento. Dionísio é o deus do ciclo de morte e vida, da busca do êxtase, dos excessos. Entretanto, longe de parecer excludentes, esses princípios apolíneos e dionisíacos equilibram-se na trajetória e na cosmovisão de deuses e homens.

Apolo simboliza o ideal grego de que ser bom é realizar aquilo que é próprio do ser humano, buscando a virtude (areté), isto é, sendo o melhor que se pode ser (daí a primeira de suas três expressões famosas: Venha ser o que tu és.). Para isso, é necessário que o homem se conheça (Conhece-te a ti mesmo - que Sócrates, posteriormente, adotou e difundiu).

O herói típico pode ser considerado a personificação desse princípio apolíneo: ele é virtuoso, pois busca a fama (kléos), a imortalidade nas canções dos aedos. Entretanto, não deve passar da medida (hýbris), ou seja, querer ser mais do que lhe foi destinado pelos deuses, exagerar em sua busca pela fama. Por isso, a terceira expressão de Apolo: Nada em excesso.

Já Dionísio é o deus dos ciclos de morte e vida, pois ele mesmo morreu e (re)viveu em diversas vezes. E, uma vez que tudo acaba em morte, deve-se aproveitar a vida ao extremo, quebrar as regras. A busca de Dionísio não é pelo reconhecimento dos feitos de um indivíduo belo e bom (kaloi k’ aghatoi), mas pelo êxtase coletivo da massa humana em suas festas. Esse êxtase (ek-stasis – sair de si) pressupõe o aniquilamento da individualidade e se expressa pela euforia causada pela bebida e dança e pelo ato de fantasiar-se: homens vestem-se de mulheres e vice-versa, sendo ou tornando-se o que não são, em total contraste com o primeiro princípio apolíneo (alguma relação com o nosso Carnaval não é mera coincidência!).

Apesar das diferenças, esses dois princípios se completam e se observam na vida do povo: um exemplo disso é a tragédia em que os atores no palco representam o indivíduo no auge do que pode ser (princípio apolíneo) e o coro abaixo, canta e dança, sem distinção entre as pessoas (princípio dionisíaco).

Assim também é com os deuses, os heróis e os homens em geral, que ora tendem a ações mais apolíneas, ora mais dionisíacas. Os grandes poemas homéricos (como os encontrados na Ilíada e na Odisséia) refletem essa dualidade: ainda que certos personagens sejam mais apolíneos, por exemplo, em alguns momentos tem atitudes dionisíacas (veja o caso da hýbris de Aquiles quando da visita da embaixada de Agamêmnon). Essa mescla é que faz com que não haja Apolo sem Dionísio ou kléos sem hýbris.

Para fim de conversa...
Quem quer estudar e entender a Filosofia Antiga deve investir algum tempo estudando o pensamento grego, especialmente a mitologia. Para isso, recomendo os livros de Junito de Souza Brandão (Mitologia Grega) e Giovanni Reale (História da Filosofia Grega). Vale a pena!

Bons estudos!
Tecnologia do Blogger.