O sentido pragmático da "Antropologia" de Kant, no Livro Terceiro


Este texto é fruto de um trabalho apresentado para a disciplina "Antropologia Filosófica" e espero que seja útil para ajudar a compreender um pouco da Antropologia de um ponto de vista pragmático, de Kant.

O caráter pragmático da Antropologia de Kant, no Livro Terceiro


A Antropologia[1] de Kant tem como característica seu enfoque pragmático. Isto é evidenciado desde o prefácio e representa a intenção do autor em examinar como o homem usa suas faculdades (de conhecer, desejar e de prazer e desprazer) para alcançar a felicidade.

Essa felicidade é conquistada pela autonomia do homem, quando ele deixa de apenas sofrer as ações da natureza sobre si e passa a ser agente da história, dominando essa natureza, sua própria natureza, e utilizando-a em seu benefício. Disso resulta o caráter tanto pragmático quanto empírico dos estudos antropológicos de Kant.

No livro Terceiro, “Da faculdade de desejar”, o autor procura analisar a relação do homem com seus apetites (desejos), inclinações, paixões e afecções. Esses fenômenos são, empiricamente, mais fáceis de serem observados e, por isso, talvez sejam os que melhor representem o ideal pragmático da Antropologia.

É interessante destacar como a análise de Kant inter-relaciona os conceitos de apetite, inclinação, paixão e afecção. Logo no início do livro Terceiro, o autor define o termo apetite, usado para designar os desejos do homem. Esses desejos fazem parte da própria natureza humana, de modo que o indivíduo não escolhe tê-los. Porém – e é isso que interessa à Antropologia –, o homem pode usar a razão para saber como lidar com seus desejos.

Uma das formas de fazer isso é compreendendo que os desejos habitualmente cultivados geram as inclinações. Neste ponto, se o indivíduo não conseguir saciar o seu desejo e, tampouco, discipliná-lo através do uso da razão, as inclinações o dominarão e se transformarão em paixões.

Por paixão, não se consideram os sentimentos amorosos, como são popularmente denominados; mas sim hábitos incontroláveis que subjugam o indivíduo de modo duradouro, privando-o da liberdade e, consequentemente, da autonomia necessária à felicidade. Portanto, as paixões têm aspecto negativo, podendo, possivelmente, serem consideradas obsessões do indivíduo. Por isso, qualquer inclinação que resulte em paixão, mesmo aquelas que parecem boas, são, na verdade, más: moral e pragmaticamente.

Finalmente, são apresentadas as afecções: rompantes emocionais avassaladores e rápidos, que impedem o uso pleno da razão, como, por exemplo, um momento de ira do indivíduo. Assim, o que distingue paixões e afecções é justamente o caráter durativo: enquanto as paixões são cultivadas dia-a-dia, as afecções surgem num instante e desaparecem logo em seguida. Contudo, ambas são prejudiciais ao indivíduo por limitarem suas funções racionais e levarem o indivíduo a agir segundo o que a sua natureza determina.

Portanto, embora aqui apresentado de maneira sintética, o estudo aprofundado da faculdade de desejar como Kant expõe realmente parece refletir a vida cotidiana dos homens na sociedade. Os argumentos desenvolvidos estão profundamente alinhados com os objetivos da Antropologia e, por isso, nos incitam a concordar com eles, ainda que reconhecendo as limitações teóricas e práticas de tais ideais.

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[1] Em todo o texto, a palavra Antropologia (escrita com maiúscula e em itálico) se refere ao título do livro de Kant: Antropologia de um ponto de vista pragmático.
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