A vida de Boécio


Uma das maneiras de entendermos melhor o pensamento de um autor é conhecendo um pouco de sua vida. No caso do filósofo medieval Boécio, isso se torna fundamental para compreender sua obra-prima "A Consolação da Filosofia" (De consolatione Philosophiae).

Vida e obra



Anicius Manlius Torquatus Severinus Boetius é o último representante ilustre da filosofia ocidental antes do fim da Patrística, vindo após Agostinho. Nasceu em Roma por volta de 480 d.C, logo após o fim do Império Romano do Ocidente. Membro de uma poderosa família romana de senadores, perdeu seu pai ainda criança e foi adotado pelo cônsul Símaco, com cuja filha casou. Tornou-se cônsul em 510 e viu seus dois filhos tornarem-se cônsules em 522. Foi educado no Cristianismo, mas para completar sua formação literária, filosófica e científica foi para Atenas.

Boécio viveu num período difícil. As invasões externas, no Império do Ocidente, e as disputas teológicas, no Oriente, marcaram o conturbado século V. As disputas teológicas giravam em torno da natureza de Jesus Cristo, se humana ou divina, e se Maria, sua mãe, deveria ser considerada Mãe de Deus. Nestório, bispo de Constantinopla, sustentava que Maria não poderia se tida como Mãe de Deus. Já Cirilo, bispo de Alexandria, afirmava a condição de Maria de Mãe de Deus, face a natureza divina de Jesus Cristo. O concílio de Éfeso, em 431, acabou por condenar Nestório, afirmando que Cristo, uma única pessoa, possuía duas naturezas distintas, uma humana, outra divina. O concílio, porém, não agradou a alguns alexandrinos que defendiam o monofisismo, uma doutrina que pregava que Cristo possuía apenas uma natureza divina. A doutrina da natureza dupla foi reafirmada no concílio de Calcedônia, em 451, que instituiu a regra ortodoxa de que Jesus seria verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Em 476, Odoacro, um comandante bárbaro, expulsa o último imperador ocioso do Império Romano do Ocidente, Rômulo Augustulo, tomando oficialmente o poder. Convertida, a partir daí, numa província gótica, pelos cinqüenta anos seguintes, a Itália é governada por reis, que embora cristãos, não dão importância aos acirrados debates cristológicos, assentindo a forma de cristianismo, o arianismo, uma doutrina que negava que Jesus compartilhava a mesma essência ou substância com Deus. No governo do rei gótico Teodorico, instaura-se um regime de tolerância no qual arianos, católicos ortodoxos e judeus puderam viver juntos com tranqüilidade.

É no governo de Teodorico que Boécio é chamado, em 522, a Ravena, capital de Teodorico, para tornar-se “mestre de ofícios”, um cargo administrativo de alto escalão. Honrado e íntegro, exercia, na sua vida prática, seus deveres com retidão, tanto quanto se dedicava à vida contemplativa. Um de seus projetos inconclusos era uma tradução latina das obras de Platão e Aristóteles, tendo traduzido e comentado, também, a Isagoge de Porfírio.

Boécio, porém, não permanece muito tempo no seu cargo. Pois, como católico e por ter defendido o senador Albino, acusado de traição em favor do imperador de Bizâncio, torna-se suspeito de conspirar contra Teodorico, supostamente incitando o imperador Justino em Constantinopla a invadir a Itália.

Condenado à morte pelo senado, é durante o período de encarceramento, antes da execução, que escreve o texto mais célebre: "A Consolação da Filosofia" (De consolatione Philosophiae). É nesse momento, em que se vê injustamente acusado, que vai buscar consolo, não propriamente na religião, mas na filosofia.

No seu texto, a filosofia encarna a personagem de uma mulher de belo porte que dialoga com o injustamente condenado e vítima de tantos suplícios, Boécio. Ela vem administrar os seus remédios ao angustiado prisioneiro. Ele se considera vítima da Fortuna, pois havia tido uma vida digna e honrada até então e agora, caído em desgraça, aguarda a morte.

Dedicou-se também à lógica e deixou quatro opúsculos teológicos, que tratam de questões relacionadas à filosofia.

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