Descartes: uma breve introdução


Neste semestre estou estudando Filosofia Moderna, inicialmente através das Meditações Metafísicas, de René Descartes. Por isso, começo hoje a compartilhar o resultado de minhas pesquisas e de meus estudos sobre esse autor. Aqui, apresento uma introdução para quem também quer começar a estudá-lo.

Descartes é um filósofo peculiar. Por isso, entender seu pensamento significa situá-lo tanto em relação à sua época quanto em relação à própria experiência de vida do filósofo.

Contextualização histórica


Descartes viveu na Europa do século XVII. Esse foi um período de profundas transformações sociais: os séculos XVI e XVII viram o florescimento do Humanismo Renascentista; o descobrimento do Novo Mundo; a Reforma Protestante; a Revolução Científica e a retomada do Ceticismo Antigo. Cada um desses eventos provocou grandes mudanças na cosmovisão do homem europeu; e Descartes não fugiu à regra.

Danilo Marcondes, no livro Iniciação à História da Filosofia, comenta: “Trata-se de um tempo de conflitos, crises, incertezas. A obra de Déscartes pode ser vista assim como uma longa reflexão sobre o seu tempo e como uma tomada de posição frente à crise de sua época” (2010, p. 165).

Por isso, observamos que os traços característicos da obra de Descartes tais como a crença no poder crítico da razão humana individual, a metáfora da luz e da clareza que se opõem à escuridão e ao obscurantismo e a ideia de busca de progresso que orienta a própria tarefa da filosofia são também características fundamentais da modernidade.

Contextualização pessoal


Além da influência histórica, Déscartes usa sua própria experiência pessoal, especialmente nas Meditações e no Discurso do Método como justificativa para as ideias que apresenta, explicando como e por que chegou a elas. Surge, assim, a necessidade de contextualizar o pensamento do filósofo com suas experiências de vida.

Esse traço pessoal tão característico da obra de Descartes já aparece no primeiro parágrafo das Meditações Metafísicas, em que ele escreve em primeira pessoa. Com isso, além de se diferenciar da tradição filosófica anterior (cujos textos têm a forma de tratados impessoais), Descartes se mostra como homem de seu tempo, ao quebrar paradigmas, colocando o homem comum em posição de pensador autônomo.

O projeto filosófico cartesiano


Já faz bastante tempo que eu me dei conta de que, a partir de minha infância, considerara verdadeiras muitas opiniões equivocadas, e de que aquilo que, mais tarde, estabeleci em princípios tão mal fundamentados só podia ser deveras suspeito e impreciso; de maneira que era preciso que eu tentasse com seriedade, uma vez em minha vida, livrar-me de todas as minhas opiniões nas quais até aquele momento acreditara, e começar tudo novamente a partir dos fundamentos, se pretendesse estabelecer algo sólido e duradouro nas ciências.
O trecho citado acima mostra também a ousadia do projeto cartesiano ao propor a desconstrução e reconstrução da ciência através de seu próprio esforço reflexivo. É na solidão, tendo como única ferramenta seu próprio pensamento, que se dedicará a esse empreendimento; não mais pela revelação, mas pelo exercício reflexivo. [1]

Descartes, em sua obra, busca criar um método não apenas filosófico, mas também científico, que sirva para a construção do “edifício do conhecimento”. Para isso, inicialmente assume uma postura cética, colocando em dúvida todo o conhecimento adquirido até então tanto por meio da ciência clássica quanto através de suas crenças e opiniões. Então, leva essa dúvida até as últimas consequências para, enfim, refutá-la. Seu objetivo, com isso, é encontrar uma certeza que resista aos questionamentos céticos e, portanto, sirva como uma base sólida para a reconstrução do conhecimento.


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[1] Trecho inicial do primeiro parágrafo das Meditações Metafísicas.

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