"A filosofia e o cotidiano"

Às vezes, é preciso olhar o mesmo cenário por outros ângulos.
Nossa situação atual exige um pensar profundo e a função do filósofo é pensar. Mas, do ponto de vista filosófico, que significa pensar?

Pensar é refletir. Refletir é como um ruminar, um voltar atrás sobre as coisas. Por isso, são poucos os que refletem e muitos os que memorizam ou acumulam mecanicamente determinadas informações.

Dizíamos que refletir consiste em voltar atrás sobre as coisas; este ato constitui a origem do filosofar. Começar a pensar supõe sempre um desprendimento que podemos denominar crise. Crise - que em grego vem do verbo Krinein - indica mais distanciar-se do que julgar. É necessário "distanciar-se", "partir" da vida cotidiana para pensá-la "de fora". [...] A cotidianidade reside, antes de tudo, na organização diária da vida, na repetição e reiteração das atividades. É a divisão do tempo e do ritmo em que se escoa a história pessoal de cada um. No cotidiano as coisas, as ações, os homens, os movimentos e todo o meio ambiente são dados aceitos como algo conhecido. No cotidiano tudo está ao alcance da mão e por isso essa realidade é vista como seu próprio mundo.

A cotidianidade constitui uma espécie de tirania exercida por um poder impessoal, anônimo, que impõe a cada indivíduo seu comportamento, seu modo de pensar, seus gostos, suas crenças. O mundo cotidiano é o mundo do familiar. É a partir desse horizonte que compreendemos o mundo, os homens e a nós mesmos. Todos nós possuímos essa compreensão pelo simples fato de sermos homens, de existirmos. Mas esta compreensão familiar da realidade é um obstáculo para o pensar filosófico.

Para refletir torna-se necessário sair do mundo cotidiano. Este sair do mundo familiar, o "estar fora" do óbvio, do herdado, do cotidiano recebido pela tradição constitui o que os filósofos gregos denominavam o admirar-se (thaumazein). [...] Porque para entender a filosofia é preciso romper com o mundo cotidiano. Como Abraão, devemos separar-nos do cômodo mundo familiar, do lugar acolhedor; esta separação precisa ser amadurecida. Por essa razão, aquele que quiser começar a estudar filosofia deve começar tomando consciência do cotidiano e, lentamente, romper com ele. Por isso, este primeiro capítulo não é uma dissertação epistemológica ou filosófica: é tão-somente um convite. Um convite à morte de nossa cotidianidade. Estando seguros e assegurados no óbvio, não poderemos pensar. Este pacífico homem que todos nós somos é o homem que diariamente devemos superar e fazer entrar em crise.

ÂNGULO apud RODRIGO, Lídia Maria. Filosofia em sala de aula: teoria e prática para o ensino médio. Campinas, SP: Autores Associados, 2009. pp. 105-106.

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