Utilitarismo ético


O utilitarismo ético nasceu na Inglaterra do século XIX, onde florescia o capitalismo industrial, que prometia, pelo avanço da tecnologia, a era do conforto e do bem-estar – mesmo que, de fato, as discrepâncias entre riqueza e pobreza estivessem longe de ser superadas.

O criador do utilitarismo foi Jeremy Bentham (1748 – 1832), já influenciado por outros pensadores. Segundo o "princípio de utilidade", tomado como critério para avaliar o ato moral, o bem é o que possibilita a felicidade e reduz a dor e o sofrimento. Além disso, porém, deve beneficiar o maior número de pessoas. Diz Bentham[1]:

A natureza colocou o gênero humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer. Somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na realidade faremos. Ao trono desses dois senhores está vinculado, por uma parte, a norma que distingue o que é reto do que é errado, e, por outra, a cadeia das causas e dos efeitos.
Os dois senhores de que falamos nos governam em tudo o que fazemos, em tudo o que dizemos, em tudo o que pensamos, sendo que qualquer tentativa que façamos para sacudir esse senhorio outra coisa não faz senão demonstrá-lo e confirmá-lo.
O princípio da utilidade [ou da máxima felicidade] reconhece esta sujeição e a coloca como fundamento desse sistema, cujo objetivo consiste em construir o edifício da felicidade através da razão e da lei. (...) Por princípio de utilidade entende-se aquele princípio que aprova ou desaprova qualquer ação, segundo a tendência que tem a aumentar ou a diminuir a felicidade da pessoa cujo interesse está em jogo (...) Digo qualquer ação, com o que tenciono dizer que isto vale não somente para qualquer ação de um indivíduo particular, mas também de qualquer ato ou medida de governo.
O termo "utilitarismo" não foi criado por Bentham, mas por John Stuart Mill (1806-1873), o divulgador mais famoso dessa concepção. Pode-se dizer que se trata da forma atualizada do hedonismo[2] grego, na medida em que destaca a busca do prazer, só que com ênfase no caráter social. Assim diz Stuart Mill[3]:

 O credo que aceita como fundamento da moral o Útil ou Princípio da Máxima Felicidade considera que uma ação é correta na medida em que tende a promover a felicidade, e errada quando tende a gerar o oposto da felicidade. Por felicidade entende-se o prazer e a ausência da dor; por infelicidade, dor ou privação do prazer. Para proporcionar uma visão mais clara do padrão moral estabelecido por essa teoria, é preciso dizer muito mais; em particular, o que as ideias de dor e prazer incluem e até que ponto essa questão fica em aberto.

 O utilitarismo, embora tenha sido muito aceito no século XIX, suscitou inúmeras controvérsias, sobretudo diante do critério para decidir quais são os prazeres superiores, quais devem ser desprezados e como conciliar o interesse pessoal e o coletivo. 

O utilitarismo ético é consequencialista, porque defende que o valor moral de uma ação depende das consequências e não dos motivos que levaram à ação. O motivo ou a intenção não são decisivos porque se referem ao caráter do agente e não à ação em si mesma. 

Para o utilitarista, não há ações intrinsecamente boas. Apenas as consequências delas podem ser consideradas boas ou más. Também não há deveres morais absolutos que devam ser respeitados em todas as circunstâncias. 


Para saber mais...


Há uma ótima apresentação no Slideshare sobre o tema do Utilitarismo. 



Alguns vídeos do curso Justiça - o que é fazer a coisa certa?, de Michael Sandel, professor da Universidade Harvard, tratam do tema também.

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[1] BENTHAM, Jeremy. Princípios da moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1974. pp. 9 – 10. (Coleção Os Pensadores)
[2] I. Nome genérico das diversas doutrinas que situam o prazer como o soberano bem do homem ou que admitem a busca do prazer corno o primeiro princípio da moral. 2. Num sentido mais estrito, o hedonismo pode ser entendido corno um pensamento egocêntrico e egoísta, preocupado apenas com os prazeres. O fenômeno atual do consumismo, freqüentemente acompanhado de uma certa preguiça intelectual e moral, ilustra esse modo de pensar. Enquanto se opõe às morais tradicionais do esforço e da renúncia, o hedonismo constitui o modo de pensar de certos discípulos de Nietzsche. (JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 3 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.)
[3] STUART MILL, John. O utilitarismo. São Paulo: Iluminuras, 2000. Em: MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 129.



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