Justiça por meio da ignorância - John Rawls



John Rawls (1921 - 2002), acadêmico tranquilo e modesto de Harvard, escreveu um livro que mudou o modo de as pessoas pensarem nessas coisas. O livro chama-se Uma teoria da justiça (1971) e foi o resultado de quase vinte anos de duras reflexões. Trata-se de um texto feito por um professor para outros professores e escrito em um estilo acadêmico bastante seco. Diferentemente da maioria das obras desse tipo, no entanto, ele não ficou juntando poeira numa biblioteca - longe disso. Tornou-se um campeão de vendas. De certa forma, é impressionante que tantas pessoas o tenham lido. Contudo, suas ideias principais eram tão interessantes que o livro foi rapidamente declarado um dos mais influentes do século XX, tendo sido lido por filósofos, advogados, políticos e muitos outros.

Rawls lutou na Segunda Guerra Mundial e estava no Pacífico no dia 6 de agosto de 1945 quando a bomba atômica foi lançada sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Rawls foi profundamente afetado pelo que vivenciou na guerra e acreditava ter sido errado o uso de armas nucleares. Como muitos que viveram naquele período, ele queria criar um mundo melhor, uma sociedade melhor. Mas essa maneira de provocar a mudança estava no pensamento e na escrita, e não em se engajar a causas ou grupos políticos. Enquanto escrevia Uma teoria da justiça, a guerra do Vietnã estava em fúria, e imensos protestos antiguerra - nem sempre pacíficos - aconteciam nos Estados Unidos. Rawls escolheu escrever acerca de questões abstratas gerais sobre justiça em vez de se enredar pelas questões do momento. No coração de sua obra estava a ideia de que precisamos saber claramente como viver juntos e as maneiras pelas quais o Estado influencia nossas vidas. Para que nossa existência seja suportável, precisamos cooperar. Mas como?

Imagine que você tenha de criar uma sociedade nova e melhor. Uma das perguntas a fazer poderia ser "Quem fica com o quê?". Se você mora numa bela mansão com piscina e empregados e tem um jatinho particular pronto para levá-lo a uma ilha tropical, provavelmente imagina um mundo em que algumas pessoas são muito ricas - talvez as que trabalharam mais - e outra são muito mais pobres. Se você está vivendo na pobreza agora, provavelmente pensará numa sociedade em que ninguém pode ser milionário, uma sociedade em que todos ganham uma parcela igual do que está disponível: jatinhos particulares não são permitidos, mas há melhores chances para as pessoas desafortunadas. A natureza humana é assim: as pessoas tendem a pensar em sua posição quando descrevem um mundo melhor, quer percebam isso ou não. Esses pré-juízos e preconceitos distorcem o pensamento político.

O "véu da ignorância"


A ideia brilhante de Rawls foi criar um experimento mental - que ele chamou de "a posição original" - que subestima alguns dos preconceitos egoístas que temos. A ideia central é bastante simples: criar uma sociedade melhor, mas sem saber qual posição nessa sociedade você ocupará. Você não sabe se será rico, pobre, deficiente, de boa aparência, homem mulher, feio, burro ou inteligente, talentoso ou sem habilidades, homossexual, bissexual ou heterossexual. Ele acredita que, desse modo, você escolherá princípios mais justos por trás desse imaginário "véu da ignorância", pois não sabe em qual posição estaria ou que tipo de pessoa seria. A partir desse simples recurso de escolher sem saber o seu próprio lugar, Rawls desenvolveu sua teoria da justiça. Tal teoria era baseada em dois princípios: liberdade e igualdade. Ele acreditava que ambos seriam aceitos por qualquer pessoa razoável.

Os princípios


O primeiro princípio era o da liberdade. Segundo ele, todas as pessoas deveriam ter o direito a uma margem de liberdades básicas que não pudessem ser tiradas delas, como a liberdade de crença, do voto nos líderes e a ampla liberdade de expressão. Mesmo que restringir algumas dessas liberdades melhorasse a vida da maioria das pessoas, Rawls acreditava que elas eram tão importantes que deveriam ser protegidas acima de tudo. Como todos os liberais, Rawls atribuía um alto valor a essas liberdades básicas, que deveriam ser um direito de todos, um direito que ninguém poderia tirar de ninguém.

O segundo princípio de Rawls, o princípio da diferença, trata da igualdade. A sociedade deveria ser organizada para dar oportunidades e riquezas mais iguais para os mais desprovidos. Se as pessoas recebessem diferentes quantidades de dinheiro, essa desigualdade só seria permitida se ajudasse diretamente os que mais precisavam. Se Rawls estivesse no governo, ninguém ganharia bônus altos, exceto se os mais pobres ganhassem mais dinheiro como resultado. Rawls acredita que esse é o tipo de mundo que as pessoas razoáveis escolheriam se não soubessem se seriam pobres ou ricas.

Outras posições


Antes de Rawls, filósofos e políticos que pensaram sobre quem deveria ter o que muitas vezes defenderam uma situação que produziria a média mais alta de riqueza. Quer dizer, algumas pessoas poderiam ser super-ricas, outras moderadamente ricas e poucas muito pobres. Mas, para Rawls, essa situação seria pior que aquela em que não houvesse super-ricos, mas sim em que todos tivessem uma parcela mais igual, mesmo que a quantidade média de riqueza fosse menor.

Essa é uma ideia desafiadora - principalmente para quem é capaz de ganhar altos salários no mundo como é hoje. Robert Nozick (1938 - 2002), outro importante filósofo político norte-americano, mais voltado para o politicamente correto do que Rawls, questionou essa ideia. Certamente, os fãs que vão assistir a um brilhante jogador de basquete deveriam ser livres para dar uma pequena parte do dinheiro do ingresso para aquele jogador. É direito delas gastar seu dinheiro dessa maneira. E, se milhões de pessoas forem vê-lo, o jogador acabará ganhando milhões - honestamente, pensava Nozick. Rawls discordava totalmente dessa visão. A não ser que o mais pobre fique mais rico como resultado desse acordo, argumentava Rawls, não seria permitido que os ganhos pessoais do jogador do jogador de basquete chegassem a tais níveis. De maneira controversa, Rawls acreditava que ser um atleta talentoso ou um sujeito extremamente inteligente não dá automaticamente direito de obter ganhos altíssimos porque, em parte, ele acreditava que atributos como habilidades esportivas e inteligências fossem uma questão de boa sorte. Você não merece mais simplesmente porque teve sorte suficiente para ser o corredor mais rápido ou um grande jogador de futebol ou muito esperto. Ter o talento de um atleta ou ser inteligente é o resultado de ter ganhado na "loteria natural". Muitas pessoas discordam enfaticamente de Rawls e acreditam que a excelência deveria ser recompensada. No entanto, Rawls pensava que não havia ligação direta entre ser bom em alguma coisa e merecer ganhar mais.

Mas e se por trás do véu da ignorância algumas pessoas preferissem se arriscar? E se pensassem que a vida era uma loteria e quisessem ter certeza de que há algumas posições atraentes a serem ocupadas na sociedade? Supostamente, os apostadores correriam o risco de acabar na pobreza se tivessem a chance de ser extremamente ricos. Portanto, eles prefeririam um mundo com uma variedade mais ampla de possibilidades econômicas àquele descrito por Rawls. Rawls acreditava que as pessoas razoáveis não apostariam a própria vida dessa maneira. Talvez estivesse errado quanto a isso.

Influências


Durante grande parte do século XX, as pessoas perderam o contato com os grandes filósofos do passado. Uma teoria da justiça, de Rawls, foi uma das pouquíssimas obras de filosofia política escrita no século que vale a pena ser mencionada com o mesmo fôlego que as obras de Aristóteles, Hobbes, Locke, Rousseau, Hume e Kant. O próprio Rawls teria sido muito modesto para concordar com isso. Seu exemplo, no entanto, inspirou uma geração de filósofos que escrevem hoje, inclusive Michael Sandel, Thomas Pagge, Martha Nussbaum e Will Kymlicka: todos acreditam que a filosofia deveria envolver-se com questões profundas e difíceis sobre como podemos e devemos viver juntos. Ao contrário de alguns filósofos da geração anterior, eles não têm medo de tentar respondê-las e de estimular a mudança social. Eles acreditam que a filosofia, na verdade, deveria mudar nossa maneira de viver, e não apenas mudar nosso modo de discutir como vivemos.

Texto adaptado de: WARBURTON, N. Uma breve história da Filosofia. Porto Alegre: L&PM, 2013.  

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.