A fortuna e a virtú no Príncipe de Maquiavel


Maquiavel é uma das figuras mais controvertidas da Filosofia. Tanto é assim que seu nome extrapolou os limites filosóficos e se tornou um adjetivo de conotação negativa. Mas será que ele é assim tão maquiavélico? 

Neste post, você conhecerá um pouco sobre dois conceitos importantes na obra O Príncipe: fortuna e virtú. Antes disso, entenderemos um pouco melhor o contexto da obra. Confira:

MAQUIAVEL: ABSOLUTISTA OU REPUBLICANO?



Em seus mais de 500 anos de história, a obra de Maquiavel levou seus leitores a interpretações que ora classificam o autor como um republicano que alertou o povo contra a tirania, ora o consideram um mestre de tiranos, imoral e sem escrúpulos. 

Na base dessa polêmica estão as imagens opostas que Maquiavel deixou em suas duas principais obras: O Príncipe e Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio[1]. Enquanto no Príncipe, Maquiavel parece defender o absolutismo, exaltando a figura do príncipe, nos Comentários, vemos um autor que apresenta o sistema republicano como necessário à estabilidade do Estado. No entanto, essa aparente contradição pode ser explicada pela análise do contexto histórico em que Maquiavel redigiu suas obras.


Temos que ter presente que Maquiavel é um político que escreve para responder aos problemas políticos do momento histórico em que vive, numa Itália completamente fracionada em pequenos principados governados tiranicamente por casas reinantes sem nenhuma tradição dinástica ou ainda de direitos contestáveis, que viviam em guerra internamente e que ainda eram completamente vulneráveis a invasões externas. (AMARAL, 2012, p. 30)


Nessas circunstâncias, Maquiavel analisa a situação de Florença valendo-se da experiência na Chancelaria da cidade – onde pôde ver de perto como nobres, cardeais, reis e papas tomam suas decisões – e do estudo da história, que lhe mostrou que “os homens repetem suas paixões e sua forma de agir ao longo dos tempos e, por isso, podemos nos servir da história para tomar decisões no presente” (BIGNOTTO, 2004, p. 13).

Desse modo, rompendo com a tradição de construção de cidades ideais[2], Maquiavel utiliza o estudo histórico de reinados e impérios antigos para analisar a situação concreta, buscando soluções práticas aos problemas políticos enfrentados por Florença. “Seu ponto de partida e de chegada é a realidade concreta. Daí a ênfase na veritá effettuale – a verdade efetiva das coisas. Esta é sua regra metodológica: ver e examinar a realidade tal como ela é e não como se gostaria que ela fosse”. (SADEK, 2001, p. 17). Trata-se, portanto, do estabelecimento de uma ética laica, em que cada ação passa a ser avaliada não pela moral, mas pelas consequências que pode produzir.

Inicialmente, Maquiavel considera necessária a criação de um novo Estado e identifica no príncipe a única pessoa capaz de realizar essa tarefa. Redige, então, O Príncipe para tratar do tema. Contudo, uma vez alcançada a estabilidade e a independência, o filósofo defende nos Comentários, que um governo misto, mais próximo da República, é a forma de governo mais adequada para a manutenção desse Estado. (PINZANI, 2004, p. 14).

Portanto, ainda que, em um primeiro momento, o príncipe seja a origem do poder político, posteriormente é necessário que a virtú do príncipe dê lugar a instituições que sobrevivam a ele. Por isso, encontramos em sua obra tantas análises de instituições antigas (de Roma ou de outras cidades) e da constituição de Estados modernos, como a Alemanha, a Espanha e a França.

O PRÍNCIPE


Exilado em sua propriedade em San Casciano, Maquiavel redige O Príncipe, em 1513, tendo um objetivo preciso: a unificação da Itália pelas mãos dos Médici.


Ao escrever O Príncipe, Maquiavel se coloca um objetivo bem determinado, articulado em dois momentos: primeiramente, indicar o caminho que deveria ser percorrido por quem quisesse unificar a Itália; depois mostrar que o momento era altamente propício para a unificação. (PINZANI, 2004, p. 14)



O filósofo constata, então, que somente um indivíduo excepcional, verdadeiro sujeito da história, pode concretizar esse objetivo: o príncipe, o único ator da obra que ficou conhecida pelo mesmo nome[3]

Servindo-se de exemplos históricos e observando a realidade política, entendida como prática humana concreta, não idealizada, Maquiavel concentra seu interesse no fenômeno do poder, formalizado na instituição do Estado[4]. Porém, “não se trata de estudar o tipo ideal de Estado, mas de compreender como as organizações políticas se fundam, se desenvolvem, persistem e decaem” (MARTINS, 2004, p. 16). Sob essa perspectiva, o Estado não está subordinado a valores espirituais transcendentes como, por exemplo, a moral e a justiça. Com isso, a análise de Maquiavel se diferencia por ser objetiva – tratando do que a política e o Estado são; não do que deveriam ser.

O que se verifica, portanto, na leitura de O Príncipe é que Maquiavel pretende influenciar a realidade, e não desenvolver teorias. Ele “não quer estabelecer as regras da política, mas identificar as regularidades presentes nela” (PINZANI, 2004, p. 17). 

Ainda que o filósofo se utilize de recursos estilísticos comuns no período renascentista, a concepção realística sobre a política se impõe até mesmo no estilo direto da obra, que valoriza mais o conteúdo que a forma, deixando claro que seu objetivo não é literário. Na dedicatória a Lourenço de Médici, Maquiavel deixa isso claro: “Obra a qual eu não adornei e nem preenchi de períodos longos ou de palavras empoladas e magníficas, ou qualquer outro enfeite ou ornamento extrínseco (...) porque desejei ou que nenhuma coisa a honre ou que somente a variedade da matéria e a importância do assunto lhe torne agradável” (MAQUIAVEL, 2010, p. 29).

ENTRE A VIRTÚ E A FORTUNA


Podemos dividir O Príncipe em duas partes principais: a primeira, dos capítulos I ao XIV, em que são apresentados os diversos tipos de principados; a segunda, do XV ao XXVI, em que Maquiavel se coloca no papel de conselheiro e dá orientações para que o príncipe possa conquistar e manter o poder.

Esses conselhos são a principal causa de o filósofo ser considerado um imoral mestre de tiranos. No entanto, AMARAL (2012, p. 29) defende que a obra de Maquiavel não é imoral, antes


podemos claramente perceber que há uma ética imbrincada no pensamento político maquiaveliano, só que esta é uma ética laica segundo a qual as ações individuais não são julgadas pelo seu coeficiente intrínseco de moralidade, mas pelo efeito político que podem produzir diante de determinada situação de fato.  


No período medieval e renascentista era comum que os escritores políticos orientassem os príncipes a se guiarem pela ética cristã, de modo que a reflexão política estaria intrinsecamente ligada à ética. O que Maquiavel põe em xeque é a própria possibilidade de união desses dois campos: seria possível um governante agir em conformidade com os princípios cristãos e, ainda assim, alcançar seus objetivos? A ética é suficiente para mostrar ao príncipe como agir na política? Para o autor florentino, a resposta é não. Sua obra mostra a necessidade de que a política seja tomada como um campo de investigação que não desconheça ou menospreze a ética, mas que seja autônomo em relação a ela.

Assim, o príncipe deve ter em mente, desde o início, que a natureza humana é má. As pessoas em geral não praticavam as virtudes cristãs que esperavam ver no príncipe. Isso fica claro em, pelo menos, três trechos do Príncipe Maquiavel expõe essa visão: “Porque dos homens se pode dizer isto: que geralmente são ingratos, volúveis, simuladores e dissimuladores, esquivos aos perigos, cobiçosos de ganho...” (2010, p. 171); “E se os homens fossem todos bons, este preceito não seria bom: mas porque são maus e não a observariam contigo, tu, então, não tens que observar a palavra dada para com eles...” (Idem, p. 179); “...os homens sempre se mostram maus, se por uma necessidade não se tornam bons” (Idem, p. 239).

Por isso, o príncipe deve fazer o que for necessário para conquistar ou manter o poder; o que, para Maquiavel, significa equilibrar-se na balança entre a virtú e a fortuna, “os dois pólos em torno dos quais giram o sucesso e o insucesso das ações humanas” (BIGNOTTO, 2004, p. 24)

FORTUNA


Para os antigos, Fortuna era uma deusa, cuja simpatia era necessário atrair, pois ela possuía os bens desejados pelos homens: honra, riqueza, glória e poder. Para conquistar esses bens, é preciso ganhar seu favor seduzindo-a. Com o advento do Cristianismo, essa concepção muda, passando a representar um destino inexorável. (SADEK, 2001, p. 21).

Para Maquiavel, a fortuna representa o elemento de imprevisibilidade de uma ação particular, podendo ser entendida como o acaso. Os homens acreditam que, repetindo as mesmas ações, obterão os mesmos efeitos. O que Maquiavel mostra é que nenhum resultado é garantido, nem com toda a habilidade que um governante poderia ter – há fatores que estão além do seu poder.

Analisando a história podemos entender ainda a fortuna como a inconstância das coisas, razão pela qual príncipes e reinos caem ou se erguem. Assim, o estudo da história, tão frequente na obra maquiaveliana, não tem como objetivo fazer com que o príncipe repita as ações de outros governantes do passado, mas que aprenda com seus exemplos.

No entanto, a fortuna


nunca é percebida como uma instância todo-poderosa que regeria o devir histórico (...) É antes como a matéria a que a virtude deve dar forma e, desse ponto de vista, confunde-se com a ocasião. Assim, Maquiavel escreveu tão somente para conjurar o homem a enfrentá-la e com o fim de fornecer-lhe os meios de fazê-lo. (...) Esta é, até, a primeira recomendação dada a quem aspira se tornar príncipe: pôr-se num estado de espírito que permita ver a fortuna não como inimiga de suas empresas, mas como mãe da ocasião. (MÉNISSIER, 2012, p. 24-25)



Apesar de reconhecer que “a fortuna seja árbitra de metade das nossas ações”, Maquiavel destaca que “ela ainda nos deixa governar a outra metade, ou quase” (2010, p. 245). Longe de se desesperar diante da incerteza dos resultados esperados, o príncipe deve se preparar para enfrentar a fortuna, tornando-se virtuoso.


VIRTÚ



O conceito de “homem virtuoso”, para Maquiavel, em nada se relaciona à noção cristã de virtude. Ser virtuoso não tem a ver com seguir princípios morais transcendentes e iguais para todos, mas com ter a capacidade de analisar cada circunstância com eficiência e saber ajustar a sua conduta de modo a atingir seus objetivos.

A virtú não consiste em agir segundo uma ideia abstrata de bem, mas em aproveitar cada ocasião dada pela Fortuna, escolhendo os meios mais adequados para transformar uma decisão tomada em realidade. MÉNISSIER (2012, p. 60), define a virtú como a “qualidade que permite triunfar pontualmente sobre a fortuna”, tornando-se “de certo modo, o par humano dela”. 

A virtú é, portanto, o elemento essencial que o príncipe deve dominar se quiser ser bem-sucedido. 

Maquiavel sublinha que o poder se funda na força, mas é necessário virtú para se manter no poder. (...) A força explica o fundamento do poder, porém é a posse de virtú a chave por excelência do sucesso do príncipe. Sucesso este que tem uma medida política: a manutenção da conquista. (SADEK, 2001, p. 23).


Partindo dessa concepção, encontramos os trechos mais polêmicos da obra, a partir do capítulo XV, em que Maquiavel oferece conselhos práticos sobre o uso da crueldade, da liberalidade, da manutenção ou não da palavra dada, entre outros aspectos necessários para que o príncipe seja virtuoso.

No entanto, ser virtuoso depende, em certa medida, de encontrar a ocasião adequada para que as virtudes se manifestem. É o que Maquiavel nos mostra no capítulo VII, quando afirma que nem mesmo aquele a quem o filósofo reputava como o homem mais virtuoso, César Bórgia, pôde resistir à Fortuna: 



César Bórgia, chamado pelo povo de duque Valentino, conquistou o Estado com a fortuna do pai e com a mesma o perdeu, apesar de ter ele usado de todos os recursos, e ter feito todas aquelas coisas que um homem prudente e virtuoso deveria fazer (...) e se seus modos de proceder não lhe aproveitam, não foi por culpa sua, [mas] porque foi fruto de uma extraordinária e extrema malignidade da fortuna (2010, p. 81)


Por isso, ao analisar os trechos em que Maquiavel trata da virtú e da fortuna vemos que os termos devem ser sempre tomados juntos, pois

olhar apenas para a virtú pode nos levar a acreditar que alguns atores políticos são tão poderosos que nunca serão derrotados. O exemplo de César Bórgia demonstra exatamente o contrário. Considerando apenas a força terrível da fortuna, seremos conduzidos à desesperança e ao fatalismo, que com muita frequência ameaçam desestimular aqueles que tentam entender as coisas da política. (BIGNOTTO, 2003, p. 28)



Assim, é possível perceber como a virtú e a fortuna constituem o cerne da ação do príncipe na teoria política maquiaveliana. Já que não é possível prever como determinada situação vai se desenvolver, o príncipe deve esforçar-se por ser virtuoso, para que possa aproveitar cada ocasião em benefício de seus planos.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARAL, M. Maquiavel e as relações entre ética e política. Ensaios Filosóficos. Rio de Janeiro, v. 6, pp. 27-37, out., 2012.

BIGNOTTO, N. Maquiavel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo: Hedra, 2010.

MARTINS, C. E. Vida e Obra. In: MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo: Nova Cultural, 2004. (Coleção Os Pensadores). pp. 5-27.

MÉNISSIER, T. Vocabulário de Maquiavel. Trad. Claudia Berliner. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

PINZANI, A. Maquiavel e O Príncipe. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

SADEK, M. T. Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual de virtú. In: WEFFORT, F. (org). Os clássicos da política. Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau, “O Federalista”, v. 1. São Paulo: Ática, 2001. pp. 13-24.





[1] Daqui em diante chamado apenas de Comentários.
[2] Como exemplo, temos A República, de Platão; A Cidade de Deus, de Santo Agostinho; Utopia, de Thomas More; etc.
[3] O título original da obra era De principatibus (Sobre os principados). Contudo, em função da escolha do editor Blado, o livro ganhou o nome pelo qual ficou conhecido: O Príncipe.
[4] Ainda que o termo Estado apareça diversas vezes na obra, Ménisser (2012, p. 18-19) defende que não é possível compreendê-lo em sua acepção moderna de uma instituição impessoal e poderosa que coordena os poderes legislativo, judiciário e executivo. Antes, stato remete quase sempre ao príncipe ou a uma possessão, uma propriedade. Mesmo assim, um elemento fundamental do Estado moderno está presente em Maquiavel: o princípio da soberania, que prevê a igualdade entre atos de governo e atos de soberania.

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