Epicteto e as compras por impulso


O que pode ter a ver Epicteto, filósofo estoico do século I d.C. e as compras por impulso? Será que havia shoppings na Roma Antiga? Isso é um post de economia? Confira!

Quem nunca comprou alguma coisa por impulso, porque viu aquela suuuuper promoção estampada na vitrine, que atire a primeira pedra. A verdade é que vivemos num mundo formatado para nos levar a comprar. As cores, os cheiros, a decoração das lojas, tudo é pensado para induzir a comprar sem pensar muito antes (Duvida? Dê um Google sobre "psicologia de vendas". Vai te surpreender!). Dia desses, conversando com um amigo arquiteto, ele me disse: "Já reparou que os pisos dos shoppings são sempre muito lisos, quase escorregadios? Isso é feito para você andar mais devagar e olhar melhor as vitrines." Fiquei :o

Essas estratégias associadas ao investimento maciço em marketing, faz com que o consumo não seja apenas um meio de satisfazer nossas necessidades, mas um estilo de vida caracterizado pelo consumo cada vez maior de produtos e serviços que carregam consigo um significado simbólico de prazer, felicidade e sucesso. Todo produto traz consigo uma promessa: consuma e seja feliz (alguém lembra aí do slogan "abra a felicidade"?). 

E o que Epicteto tem a ver com isso?

Apesar de Epicteto ter vivido muito tempo antes da nossa sociedade consumista, sua filosofia ainda é muito atual e pode nos ajudar a compreender melhor nosso tempo. Assim como Sócrates, Epicteto nada escreveu. O que temos hoje são notas de aula redigidas por um de seus discípulos, Arriano Flávio. Um desses escritos é o Manual, uma espécie de resumo prático da filosofia epictetiana. 

A partir desses textos de Arriano, aprendemos como a filosofia de Epicteto é extremamente prática, o que em Filosofia chamamos de Filosofia como forma de vida, uma chave de leitura da Filosofia Antiga e Helenística proposta por Pierre Hadot. Segundo essa chave de leitura, só é possível compreender filósofos antigos se tivermos em mente que o objetivo deles não era simplesmente construir sistemas teóricos, mas um certo modo ou estilo de vida. Isso influencia todas as esferas da vida, incluindo a nossa relação com os bens e o dinheiro.

Para começar a reflexão, um pequeno trecho do Manual, que podemos aplicar à nossa relação com os bens:

O senhor de cada um é quem possui o poder de conservar ou afastar as coisas desejadas ou não desejadas por cada um. Então, quem quer que deseje ser livre, nem queira, nem evite o que dependa de outros. Senão, necessariamente será escravo. (Manual XIVb)

Um primeiro "pé no freio" que podemos ter com o consumo desenfreado é pensar: eu sou o senhor da minha vida ou me tornei escravo dos meus desejos? Que preço (tanto financeiro quanto pessoal) eu estou disposto a pagar pelo que eu quero? Vale mesmo a pena? Eu tenho as coisas ou as coisas me têm?

O trecho seguinte é um passo-a-passo muito interessante para evitar comprar por impulso:

Quando apreenderes a representação de algum prazer – ou de alguma outra coisa – guarda-te e não sejas arrebatado por ela. Que o assunto te espere: concede um tempo para ti mesmo. Lembra então desses dois momentos: um, no qual desfrutarás o prazer, e outro posterior, no qual, tendo-o desfrutado, tu te arrependerás e criticarás a ti mesmo. Compara então com esses dois momentos o quanto, abstendo-te <desse prazer>, tu te alegrarás e elogiarás a ti próprio. Porém, caso a ocasião propícia para empreender a ação se apresente, toma cuidado! Que não te vençam sua doçura e sua sedução. Compara isso ao quão melhor será para ti teres a ciência da obtenção da vitória. (Manual XXXIV)
Aplicando às compras por impulso, poderíamos pensar assim:

1º passo: quando você achar que alguma coisa (como aquela liquidação) é boa ou prazerosa, dê um tempo e não se deixe arrebatar. Em outras palavras: mantenha a cabeça no lugar e não se deixe levar. 

2º passo: imagine duas situações. Na primeira você vai em frente, compra, tem um prazer imediato, mas depois sofre com a fatura do cartão ou a falta de dinheiro, por exemplo. (Quem nunca?) Na outra situação, você evita a compra por impulso e se sente feliz consigo mesmo por não ter caído numa "armadilha do consumo", como dizem por aí. 

Mesmo se for o caso de comprar (a ocasião propícia), o texto nos diz que devemos ter cuidado para não nos deixarmos seduzir. No caso do consumo contemporâneo, poderíamos dizer: se for necessário, tiver um bom preço e não representar um furo no seu orçamento, compre, mas não se deixe dominar pela compra. Não compre além do necessário, caindo no "papo do vendedor". 

E você, costuma fazer compras por impulso e depois se arrepende? Ou é uma pessoa mais contida? Tem alguma dica para compartilhar? Deixe seu comentário!

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