O que é um filósofo? A Filosofia como forma de vida


O que é um filósofo?

Há uma anedota na Filosofia que diz que se você perguntar a 20 filósofos "o que é a Filosofia", você terá 20 respostas diferentes. Certa vez, numa turma de 1º ano do Ensino Médio, eu perguntei: "O que vocês acham que é a Filosofia?". E um aluno responde: "Filosofia é pensar por que as vacas não voam". Acredito que se perguntarmos por aí "o que é o filósofo?", teremos o mesmo resultado. Rsrs

Hoje em dia, existem muitas correntes filosóficas ou ramos da Filosofia. Porém, um estudioso que se interesse por uma delas assume, no máximo, uma posição teórica a respeito de certos temas ou doutrinas. Não se espera de um estudioso da Filosofia, especialmente no meio acadêmico, que essa posição teórica afete as decisões que ele toma ou o modo como ele vive.

Contudo, desde a obra do helenista Pierre Hadot, tornou-se comum compreender a Filosofia Antiga, e especialmente a Filosofia Helenística, como um trabalho sobre si, uma prática de si[1]. Trata-se de pensar que as teorias filosóficas, por vezes tão abstratas, têm, no seu fundo, o objetivo de transformar para melhor a vida daquele que filosofa, para que ela seja uma boa vida, de modo que a própria Filosofia não é vista apenas como um conjunto de postulados teóricos, mas como uma arte de viver, um determinado estilo de vida, que engloba toda a existência, visando ao aperfeiçoamento do indivíduo.

...para os antigos, se é filósofo não em função da originalidade ou da abundância do discurso filosófico que se inventou ou desenvolveu, mas em função da maneira pela qual se vive. Trata-se, antes de tudo, de tornar-se melhor. E o discurso só é filosófico quando se transforma em modo de vida”[2].

Esse traço existencial das filosofias antigas não pode ser desprezado. Todas elas podem ser propriamente descritas como dependendo, em última análise, de exercícios espirituais[3], isto é, de determinadas práticas voluntárias de transformação pessoal, inerentes ao modo de vida filosófico, que visavam modificar a forma irrefletida como os homens respondem aos acontecimentos em suas vidas.

A referência primeira e principal quando se trata do conceito de Filosofia como forma de vida é Sócrates e sua dialética: encontrar-se com Sócrates e dialogar com ele era sempre uma forma de se ver pressionado a pensar sobre o modo como cada um leva sua vida. Mais que isso, a imagem de Sócrates enfrentando com coragem e otimismo sua morte iminente, relatada por Platão no Fédon, se tornou exemplar para demonstrar a força de transformação que a Filosofia pode ter na vida dos homens: é possível chegar a se curar do medo da morte por meio da vida filosófica. Na República, mesmo na célebre imagem de contemplação das Formas e no método dialético de ascese, que retira o prisioneiro de seu estado de contemplador de sombras, podemos observar aspectos lógicos e ontológicos que visam produzir, em última instância, uma vida ética superior.

Posteriormente, encontramos exercícios espirituais em quase todas as escolas filosóficas da Antiguidade: os estoicos retificam seus juízos sobre os objetos, reconhecendo que não se deve prender-se às coisas indiferentes; entre os cínicos, a privação da fome, do conforto e o afastamento dos artifícios da civilização preparam a pessoa para adquirir mais resistência e conquistar independência; entre os pirrônicos, a suspensão dos juízos de valor elimina os conceitos de bom e mau; os epicuristas pretendem chegar ao prazer puro pela limitação dos desejos.[4]

Por isso é tão importante a noção de “Filosofia como forma de vida” para os estudos da Filosofia Helenística e, mais especificamente, para o Estoicismo de Epicteto (sobre quem falaremos em postagens futuras!). Nas palavras de Duhöt, “o estoicismo não requer uma simples adesão intelectual ou mesmo afetiva, ele só tem sentido se permite que nos transformemos”[5]. Somente por meio dessa chave de interpretação, compreendemos o sentido de certos ensinos de Epicteto tais como:

Jamais te declares filósofo. Nem, entre os homens comuns, fale frequentemente sobre princípios filosóficos, mas age de acordo com os princípios filosóficos. [...] Do mesmo modo que as ovelhas não mostram o quanto comeram, trazendo a forragem ao pastor, mas, tendo digerido internamente o pasto, produzem lã e leite, também tu não mostres os princípios filosóficos aos homens comuns, mas, após tê-los digerido, <mostra> as ações.[6]


E para você, o que é ser filósofo hoje? Deixe sua opinião aqui nos comentários. 




[1] Especialmente as filosofias que se iniciam a partir de Sócrates, pois falar de uma filosofia ética dos pré-socráticos é complicado.
[2] HADOT, P. O que é Filosofia Antiga? São Paulo: Loyola, 2011. p. 250.
[3] O termo “exercícios espirituais” será apresentado com maior profundidade adiante, na página 13.
[4] HADOT, P. op. cit., p. 273.
[5] DUHÖT, J.-J. Epicteto e a sabedoria estóica. Trad. Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2006.
[6] Manual XLVI.1. EPICTETO. O Encheiridion de Epicteto. Edição bilíngue. Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien. 1 ed. São Cristóvão: Universidade Federal do Sergipe, 2012. 

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