O que é o tempo? A resposta de Agostinho



O filósofo e teólogo Agostinho, no capítulo XI das Confissões, propõe uma interessante e complexa questão: “O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei” (1980, p. 218). A partir dessa constatação procuraremos aqui expor a investigação que o autor fez sobre o tema através dos argumentos levantados e das conclusões propostas.

Como teólogo, as indagações de Agostinho, naturalmente, tem início em temas que envolvem Deus, sua criação e a eternidade. Entretanto, as análises feitas pelo filósofo revelam a utilização de sutis argumentos filosóficos que gradativamente se desenvolvem até chegar ao ponto que considera ideal para justificar suas conclusões.

Podemos observar, já no item 02 do capítulo XI, como Agostinho manifesta seu desejo em gastar todo o seu tempo disponível em meditar na lei de Deus para que possa compreendê-la. Mas, logo surgem os primeiros problemas: Moisés, a quem é atribuída pela tradição judaico-cristã a autoria de todo o Pentateuco[1], registrou a história de como Deus criou o mundo. Porém, seus relatos ficaram no passado: a voz de Moisés ecoou e calou-se.

Ainda sobre a criação e, seguindo o relato bíblico, a voz de Deus é reconhecida como a palavra criadora, através da qual tudo veio a existir, sem que antes houvesse qualquer substância: “Portanto, é necessário concluir que falastes, e os seres foram criados. Vós os criastes pela vossa palavra!” (AGOSTINHO, 1980, p. 213). Mas, assim como a voz de Moisés, a voz de Deus ecoou e calou-se. Contudo, ainda é possível perguntar: essa voz criadora é a mesma voz que se ouviu no batismo de Jesus? Agostinho considera que não: a voz do batismo não poderia ser a mesma da criação, pois a voz criadora é imutável, uma vez que é a voz do próprio Deus; a voz que se ouviu no batismo de Jesus ecoou no tempo, estando sujeita às transformações que este impõe.

Entretanto, a pergunta que motivará o desenrolar dos argumentos filosóficos de Agostinho só é apresentada no item 10: “Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?” (1980, p. 215). O autor apresenta o argumento de quem questiona o que Deus fazia antes de criar, ou em outras palavras: se Deus é eterno, como pode, num momento não ter uma vontade e num outro momento ter? Considera que se fosse assim, Ele seria mutável, como suas criaturas. Mas a vontade de Deus não é uma criatura, logo não pode mudar. Isso, porém, gera uma outra questão: se a vontade de criar é eterna como Ele, por que as criaturas não o são?

Para responder ao problema, primeiro Agostinho pondera que um ser temporal (e, portanto, limitado) como um ser humano, jamais chegará a entender a eternidade e Deus. Assevera ainda que não seria um empecilho pensar que Deus não fazia nada antes de criar, mas conclui esse trecho do argumento (item 13) afirmando que o problema está na própria formulação da pergunta: não é possível argüir o que Ele fazia antes porque para Deus o tempo não se divide (como para nós) em passado, presente e futuro. Na verdade, Deus existe antes do tempo e é criador dele.

Uma vez proposto que o tempo é uma criatura de Deus, Agostinho começa a questionar a existência do tempo: o que ele é? Como entender suas divisões? Pois, como se pode pensar no passado ou no futuro se eles não existem? Como o presente sucede do passado, se este já não existe? E mais: como dizemos que medimos o tempo se o passado e o futuro não existem? Como dizer que qualquer tempo é longo ou breve, se não podemos medi-lo?

Agostinho recomenda, então, que se divida o tempo até que se chegue a uma ínfima partícula que não possa ser dividida em passado e futuro. A essa partícula ele chama de presente, considerando que só ela, de fato, existe e, por conseguinte, pode ser medida. Quanto ao que todos nós aprendemos desde crianças (que há passado, presente e futuro), o autor afirma que existem fatos passados que são gravados na memória, pois deixam vestígios no espírito. Esses fatos não existem, mas a imagem deles, formada na memória, é evocada quando lembramos. As coisas futuras não existem também, mas as prognosticamos “pelas coisas presentes que já existem e se deixam observar” (AGOSTINHO, 1980, p. 221). Fazemos previsões com base em constantes no presente. Quanto às revelações que os profetas tem do futuro, Agostinho pede que Deus explique como ocorrem, pois não consegue entender.

Finalmente, baseado nesses argumentos, é que Agostinho propõe que se utilize uma nova terminologia para expressar de modo mais exato o tempo: o presente das coisas passadas (lembrança presente das coisas passadas), o presente do presente (visão presente das coisas presentes) e o presente do futuro (esperança presente das coisas futuras) (1980, p. 222). Em suma, apenas o presente existe; passado e futuro são, respectivamente, lembranças e esperança produzidas pela memória, hoje.

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[1] São designados como sendo o Pentateuco os cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

AGOSTINHO. Confissões. Tradução de Ângelo Ricci. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

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